Dão e Lafões

Diz que Disse – Pingas no Copo

By rolhas-
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Já lá vão 13 anos desde o seu primeiro conteúdo no Pingas no Copo, os tempos mudaram, mas a vontade de defender as suas raízes mantêm-se intacta. Aqui fica o primeiro episódio da rubrica “Diz Que Disse” com a participação de Rui Massa, mais conhecido como Pingus Vinicus nas diversas plataformas sociais.

Nunca fui uma pessoa muito consensual ou popular – Pingas no Copo

Lembras-te da primeira garrafa de vinho que compraste e onde? 

Não. Não me lembro mesmo. Podia criar uma história romanceada e contar. Mas não, não faço ideia. Talvez um Grão Vasco branco. Ou um Casal Garcia. Ou um João Pires. Mas não sei mesmo.

No primeiro post que escreveste, em abril de 2006 referiste “O Pingas no Copo não pretende ser um local para experts e muito menos pretendo comportar-me como tal. Por aqui vai imperar amadorismo, a paixão e muita vontade de dar a conhecer o que vou bebendo e comendo por esse país fora”. Passados 13 anos, continua a ser a máxima do Pingas no Copo?

13 anos? Já são muitos litros de vinho e de baboseiras. Claro que sim. Indiscutivelmente. Sou apenas um tipo que gosta de beber e dizer qualquer coisa, na maioria das vezes nada, ou opinar sobre o que acho ou o que me parece. Naturalmente, isto tem um preço.

Ofertas e não amostras, sentes que a lista de amigalhaços tem vindo a diminuir nos últimos anos ou pelo contrário aumentou?

Já se falou muito sobre amostras. No que me diz respeito, não faz qualquer sentido receber vinho para provar e depois meter uma nota de prova no blogue. O que é que a minha opinião iria/irá contribuir para o sucesso ou insucesso de um vinho? Quem sou eu? O que fiz para merecer? Quantas garrafas serão vendidas, por causa da minha nota de prova e da minha classificação/avaliação? Aliás, as empresas de comunicação, de assessoria, bem como os produtores deviam fazer uma análise profunda da realidade das amostras de vinho, bem como dos convites para almoços, jantares, lanches de apresentação. Mas se o modelo actual satisfaz toda a gente, não há nada a dizer. É pena, porque existe muito défice de análise, de reflexão, de auto-critica.

Escreveste algures que te chateia viver de forma insossa, é uma forma de mostrares o teu lado mais controverso ou o teu verdadeiro eu?

É a mistura dos dois. São inseparáveis. Não é possível, separarmos estes dois lados. Em jeito de brincadeira, nunca fui uma pessoa muito consensual ou popular. É apenas uma constatação que faço de mim. É a imagem que tenho de mim. Não digo isto com orgulho ou satisfação desmedida. Gosto de discutir, desmontar as ideias, ser por vezes o advogado do diabo para perceber melhor esta ou aquela ideia. Infelizmente em Portugal, e em particular nos vinhos, é encarado como maledicência. Se tens um objectivo, seja ele qual for, só tens uma hipótese: Morder a língua, antes de falar.

Sempre assumi as minhas tendências, as minhas escolhas, a minha parcialidade. Assumo-a, com todos os riscos, preto no branco. Como também assumo, as minhas incoerências. Descobri que é muito mais divertido e interessante, mostrarmos que somos assim. Faz-me alguma impressão, o cuidado, a postura defensiva, em que tudo chuta para o centro, para não ficar mal da foto. Fico com a ideia que anda meio mundo à procura de qualquer coisa, mas não o assume. Faz-me impressão e continuará a fazer. São formas de estar na vida. Cada um tem as suas. Não fui feito, nem tenho paciência, para andar de mão estendida.

Ultimamente tens escrito muito sobre saberes e sabores da cozinha tradicional portuguesa, sentes que se têm perdido essas raízes sobretudo nos grandes centros urbanos?

Sim. Estamos a ficar descaracterizados, descontextualizados. Sinto isso quando olho para as minhas filhas. Preocupa-me, muito, que as minhas filhas não saibam quais são as origens do pai, da mãe. O que eles comiam, quando eram crianças, jovens. A comida que metemos no prato tem uma lógica, uma dimensão cultural e etnográfica. Depois, tal como nos vinhos, vivemos a época das esculturas nos pratos. Das desconstruções.

Como serrano sentes que o vinho pode ser um veículo contra a desertificação do interior, nomeadamente, da região do Dão?

Para quem tem origens na Beira Alta Serrana (e no Douro também), como gosto de dizer, os problemas do interior são muito profundos. O vinho, por si só, não é suficiente para colmatar toda a degradação e abandono do interior. Faltam pessoas e muitas. E não vejo solução à vista.

Todos gostamos de mostrar o que andamos a comer, beber e a fazer. E quanto mais exclusivo, melhor.

Mais do que um apaixonado, um embaixador do Dão, o que achas que faz falta à mesma para estar na linha da frente nas escolhas do consumidor?

Pensei e debati muito sobre isso, no passado. Após alguns anos, sinto que tudo está quase na mesma. Observam-se uns fogachos aqui e além, mas nada de consistente. O Dão, pelas suas dinâmicas sociais e regionais bem enraizadas, será sempre uma região com problemas de implementação. Tenho pena, mas é uma realidade. Sendo que a CVR devia ter outro dinamismo e perceber que as fronteiras da região não terminam em Viseu e nos arredores.

Passaram seis anos desde o primeiro #daowinelover meeting, com a proliferação dos eventos vínicos um pouco por todo o país, achas que podemos esperar uma nova edição em defesa e promoção da região? 

Muito dificilmente. Há eventos e mais eventos. Eventos que se repetem, com os mesmos actores. Para fazermos um evento, perdoem-me a soberba, é preciso oferecer algo novo. E os eventos, na sua generalidade, são mais do mesmo. Percebo a sua necessidade, do ponto de vista comercial e promocional, mas no fundo não passam de reproduções uns dos outros. Não esquecer, também, que o mercado é pequeno. O #daowinelover meeting foi algo que deu muita satisfação e prazer. Tenho que agradecer ao Paulo Nunes e à Casa da Passarella por terem abraçado a ideia.

Salvo lapso, terá sido o primeiro e o único evento em que mais de trinta produtores aceitaram estar presentes nas instalações de outro produtor. Depois aquela prova de vinhos do CEVD foi algo inesquecível. Aproveito a oportunidade, para agradecer também à Global Wines que abraçou, nas suas instalações em Carregal do Sal, um evento do #daowinelover. Foi o segundo. Foi, também, uma oportunidade única para conhecer os vinhos e a história deste importante produtor. Depois ainda fizemos o Pinkday, Whiteday, o TNday, o Best of, #daowinelover em Aveiro, Private Cellar, Encruzado day. Participaram centenas de pessoas. Momentos que só aconteceram, porque tivemos o apoio dos produtores. E não foram assim tão poucos. A todos o meu sincero agradecimento.

Regresso ao Pingas no Copo, na primeira edição da rubrica “As coisas que mais gostei” não constava nenhum Dão, ou contrário da edição de 2016 dominada pelos vinhos dessa região. Será caso para dizer, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades?

Foi conjuntural. Foi apenas o reflexo de provas e de posts que ia publicando no meu blogue. Actualmente a rubrica deixou de ser feita.

Podemos saber dois ou três vinhos que te encheram as medidas em 2018 no Pingas no Copo?

Hum… Ainda fui espreitar o meu blogue e podia aqui desenrolar uma lista de vinhos superlativos. Mas acho que não estava a ser sincero. Respondo-te de uma forma muito simples e directa. Os vinhos que me encheram as medidas, foram todos aqueles que em determinado momento me souberam bem, sozinho ou acompanhado. Da garrafa ou do jarro.

Recentemente escreveste que sentias saudades da velha blogosfera, sentes que perdemos completamente o interesse pelo conteúdo e vivemos para mostrar quem bebe o melhor, o mais caro e a mais exclusivo vinho do mercado sem dar o devido valor ao momento?

Completamente. Aliás, o conteúdo perdeu primazia em relação à imagem. Agora vemos a imagem, metemos like e passamos à frente. Não é por acaso, que vemos diversas personagens a abandonar o facebook. Todos contribuímos para o estado da sociedade em que vivemos. Mas percebo e entendo, porque também o fiz e faço. Todos gostamos de mostrar o que andamos a comer, beber e a fazer. E quanto mais exclusivo, melhor.


Agradeço, uma vez mais, a disponibilidade do Rui na resposta a estas questões e não se esqueçam de visitar o Pingas no Copo…Quem será o próximo convidado?

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